Unanimidade utópica na Humanidade caótica

O que vemos e consideramos sempre como consenso e adaptação social, muitas vezes reconhecida pelo neoliberalismo, como fruto da “mão invisível”,1 não passa de uma aparente e falsa maneira humana de mimetismo2 ao sistema vigente.

Certamente que o mundo não está pousado harmonicamente sob o conforto de uma mão invisível. O comportamento humano, nesta fugaz aparência, na verdade, é fruto da impossibilidade de transformar a realidade presente na desejada pelo “EU”. Na impossibilidade, digo, na impotência de transformar as coisas, nos submetemos a elas, suportando-as, dinamizando uma espécie de acomodação social pelo medo da rejeição e da morte.

Este diálogo permanece somente até o minuto oportuno em que possa se desencadear o golpe pelo poder, a golden cross3, o desejo de sobrepujar o mundo ao meu bel prazer, escravizando se possível, o meu próximo para tentar saciar a minha “auri sacra famis”4, nem que para isso use o sacrossanto nome de Deus, impondo medo ao meu irmão, persuadindo-o pela força a aceitar o mundo como eu o vejo, considero e quero. Esse é o cerne subjetivo do fundamentalismo do qual, todos somos sempre influenciados.

Este desejo segundo pesquisas nasce desde a semente mais primitiva,

nunca mudaremos, apenas o encobriremos. Esta afirmação é baseada na depravação original e que certamente descreve ainda de forma discreta e superficial a verdade da arruinada ética humana.

Dentro desta perspectiva percebemos ainda que o comportamento humano dinamiza-se no espectro das possibilidades de domínio. Weber em seu discurso impinge ao homem características do desejo de domínio e poder, que por inferência nos remete aos termos da narração bíblica, do diálogo celestial de Lúcifer tentando contra poder do Criador (Ezequiel 28 e Isaías 14). Esta tendência do desejo de poder instala-se em caráter constante na humanidade, assemelhando-se a uma forma clara de comunicação

ou influências luciferianas5 inerentes ao homem hodierno.

Desde o mais profundo e servil estado de abnegação à mais soberba e

insubmissa arrogância, vemos como fator determinante, não necessariamente a independente decisão da postura de um vassalo voluntário, mas, diagnosticamos sim, este tal comportamento como mera conseqüência de uma rendição ante a compreensão de um poder indefensável e/ou intransponível, que em potência o faz subjugado decorrendo na mais sensata, mesmo que inconsciente decisão de alienar-se a ele.

Rousseau afirma que esta alienação não é uma doação, antes sim, a venda da subserviência tendo por ganho a sobrevivência6. Assim sobrevivem as pessoas as raças e as espécies, mudando seu modo vivendus para poder continuar vivendo.

Podemos afirmar que este diálogo é denominado por Rousseau como Pacto Social.

A detenção do desejo humano ocorre apenas ante a um poder maior. Logo prevalece o princípio do maior subjugar e dominar o menor. Seja indivíduo, equipe, seita, ou nação. A única coisa capaz de me fazer aceitar o outro é o fato de entender uma destas opções: ou este diferente indivíduo é desprezível ao meu galgar; ou o aceito por apenas um momento suportável, porém, jamais definitivamente; ou ainda em última instância, este é uma etapa em que possa usar, blefando um aceite, contudo, visando o meu desejado logro maior ao final. Concordando com o pensador Jean Paul Sartre, que

em suas palavras diz que o outro é tudo o que eu não desejo, o outro é diferente do mesmo, o outro é o meu inferno. Estas dinâmicas humanas expressam sempre o uso do poder já obtido visando um poder maior, é como o permanente jogar um fruto verde e sem sabor para tomar nas mãos o doce e maduro fruto.

Ciclicamente, a ação do homem alimenta a avidez da vaidosa busca maior, até que mais cedo ou mais tarde encontre o poder a este superior quando obrigatória e definitivamente se venderá mais uma vez pelo preço da sua própria sobrevivência.

Todo homem quer ser deus, e o é, no âmbito da torpeza daquele que não O conhece, e ainda não sabe o que é Deus. Todo homem singra os oceanos da sua existência em destino ao porto do desconhecido, no entanto, desejado, até que este maior lhe oponha (lhe vença), Barth, P. 44. afirma que a fé é o respeito ao incógnito divino e o amor a Deus.

Todo aquele que reconhece que os limites do mundo estão demarcados por uma verdade que o contradiz; todo aquele que vê a sua própria limitação marcada pela vontade divina que contraria sua própria vontade; quem acaricia o espinho que este cerceamento representa em seu ser e seu modo de ser, ainda que isto lhe seja extremamente difícil, por conhecer demasiadamente bem a extensão dessa contradição e que, embora por estas razões todas lhes sejam anseios de escapar dela, obriga-se a viver com ela (overbeck) e que, em resumo se 6 Russeau, Do Contrato Social- Da escravidão, Cap IV, P61-65 confessa sujeito a essa contradição, vencendo a si mesmo ao ponto de nela (e por ela) se apoiar a sua vida, esse tal crê!

Neste aspecto a conversão dos homens a Deus poderia ser literalmente

substituída por rendição a Deus. Na narração bíblica vetero e neotestamentária, explicitamente, encontramos rendições sem precedentes na vida daqueles que se converteram. Foi assim com o apóstolo Paulo no Caminho de Damasco e também com o profeta Isaías, que no capítulo 6 do livro que leva o seu nome, pode-nos esboçar pontos de uma inaudita rendição. Primeiro o Profeta narra ver o Senhor dos exércitos, fica claro que o profeta ver o oposto do que ele mesmo era, então sobra-lhe um grito aterrorizado vindo do profundo das suas entranhas e com uma consciência de que aquele talvez lhe fosse o último fôlego de existência, confessa: – sou impuro e vi o Santo. Vemos ai o contraponto do espinho vislumbrado por Isaías, vencê-lo.

Concluímos neste aspecto que o homem ocupará sempre o domínio de tudoaquilo que possa alcançar, i.e.: vencer ou sobrepujar, quando não, se rende. O fundamentalismo está diretamente ligado a superioridade da força. Isso ocorre em toda natureza, não só na humana. O leão reina no topo da cadeia alimentar, e luta para a permanência desta realidade, de igual modo os tubarões nos fundos dos oceanos, o carnívoro gavião sobre as outras aves, e o homem, ao mandato cultural 7 de Deus domina sobre estes e além disso tenta dominar o próprio semelhante. Isso é fundamentalismo natural.

1 Expressão filosófica atribuída a sempre presente organização das coisas, assim como elas estão.
2 Capacidade biológica de alguns seres vivos assimilar a cor do ambiente
3 Golden Cross, expressão americana que denota a “corrida do ouro” ou “cruz dourada”, a busca dos
desejos materiais da vida.
4 Auri sacra famis – sagrada fome de ouro, Weber.Max P.36
5 oriundas de Lúcifer, através do pecado original humano

Robério Soares de Souza

www.roberiosoares.com.br

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